terça-feira, 13 de maio de 2014

062 12º Colóquio Era: Resumos


O 12º Colóquio da Era decorrerá já esta sexta-feira (dia 16), no Auditório Caixa Geral de Depósitos, no ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão).



Entretanto, não deixem de consultar os resumos das comunicações a ser apresentadas.


Justificação e Objectivos de um projecto FCT
António Carlos Valera
 
 Serão apresentadas as razões que conduziram à concepção e desenvolvimento do projecto “Práticas funerárias da Pré-História Recente no Baixo Alentejo e retorno sócio-económico de programas de minimização de impactes” aprovado e financiado pela FCT e os objectivos que se pretenderam alcançar. Esta comunicação servirá de introdução às quatro que se seguem e que apresentarão resultados de uma das dimensões de investigação que integraram o projecto.
 

Arqueologia de Salvamento: Oportunidade Estratégica ou Custo Afundado?
Patrícia Caldeira Jorge
 
A Arqueologia de Emergência é vista como um custo irrecuperável, algo que se cumpre para não incumprir. Mas e se dela puder emanar um admirável mundo novo de alternativas que torna o custo de oportunidade de não fazer nada incomportável para o promotor e para a sociedade? Quanto custa a uma comunidade ou a um promotor perder a oportunidade de se diferenciar ou de criar novos produtos e serviços? A Arqueologia deve estar ao nível do pensamento estratégico, toca nas pessoas, nos seus valores e na sua ética, o que de mais nobre uma marca quer transmitir ao mercado ou um lugar pode ambicionar. Numa altura em que tanto se escrutinam as questões da sustentabilidade pode continuar a passar-se ao largo da riqueza de conhecimento gerado pela arqueologia de salvamento e não a accionar? Como as regiões podem dar alento a novos projectos e às suas gentes a partir do conhecimento gerado: a Arqueologia como rastilho do ânimo económico, exemplos paradigmáticos.
 

O Valor Social de Programas de Valorização do Património Cultural: O Caso de Brinches e Sobreira de Cima
Isabel Mendes  and Manuel Coelho
Lisboa School of Economics and Management, University of Lisbon

Nesta comunicação, pretendemos analisar as alterações no bem-estar das comunidades locais, associadas à implementação de um hipotético programa de valorização do conhecimento arqueológico obtido através de actividades de arqueologia de salvação, implementadas na região de Brinches e de Sobreira de Cima. Para tal, usaremos um dos métodos de quantificação monetária de externalidades, o método da Valorização Contingencial (VC). Este método baseia-se na análise qualitativa e quantitativa das preferências que as pessoas expressam por alterações no capital natural e patrimonial, permitindo quantificá-las num único valor monetário. Este valor monetário é uma proxi para o valor económico do programa de valorização hipotético proposto e para as alterações do bem-estar das populações a ele associadas. A população da região mais directamente afectada pelo programa demonstrou ter uma preferência positiva relativamente elevada pelo programa, declarando uma disposição individual máxima em contribuir mensalmente e durante cinco anos para o co-financiamento da sua hipotética entidade gestora, com 0.66 (1.24) euros. Concluímos que o programa tem um valor aproximado de 1 325 339,63 euros (2 490 032,04 euros). As nossas estimativas são coerentes com outras, como o demonstra a análise da literatura e da prática da valorização económica de decisões que impliquem alterações no património cultural. Estas estimativas deverão ser, no entanto, utilizadas com os cuidados de utilização habituais para qualquer estimativa obtida com base nestes métodos de valorização económica de alterações do bem-estar social. As estimativas podem ser utilizadas no processo de tomada de decisão sobre o património cultural da região, ao facilitar as respostas a questões como: deverá a sociedade gastar recursos escassos com a valorização cultural, quando a quantidade e o tipo de benefícios, e o retorno dos respectivos investimentos, são imprevisíveis e de difícil percepção e de quantificação? Que entidades deverão financiar o processo de valorização? Até que ponto as comunidades estão dispostas a aceitar e a comprometer-se, activamente, no processo de valorização?

Uma questão de comunicação....para começar a conversa!!!
Ana Calapez Gomes
A construção e sustentação de redes de entidades heterogéneas é indispensável tanto ao financiamento como à implementação de projetos de desenvolvimento a nível territorial. A questão da qualidade do fluxo de informação e comunicação entre as partes envolvidas, a nível local e não só, decorre desta necessidade, assim como a confiança indispensável a qualquer ação baseada na cooperação.
Portugal tem uma velha tradição de isolamento grupal associado a uma diferenciação social e de poder muito marcada, o que dificulta o estabelecimento de relações entre pares cooperantes. A região do Alqueva não foge a esta regra.
Com base na análise de conteúdo de 35 entrevistas semidirigidas constatámos a inexistência de conflitos fraturantes na região, no entanto, os fluxos de comunicação apresentam apenas um sentido horizontal (entre pares) e vertical (de cima para baixo). A comunicação vertical (de baixo para cima) é escassa e os fluxos transversais praticamente inexistentes. Sendo assim, as condições para a criação de redes de atores sociais cooperantes não estão criadas, pelo que advogamos uma intervenção/ acompanhamento baseado em entidade apercebida como neutral.

Criatividade e clustering na valorização turística em arqueologia de salvamento
Idalina Dias Sardinha, David Ross, Sandra Loureiro

O património arqueológico representa actualmente uma parte importante da oferta turística do Baixo Alentejo.
A intervenção arqueológica decorrente dos estudos de impacte ambiental da barragem do Alqueva produziu resultados que permitem compreender melhor a história da ocupação humana deste território, apresentando potencial para enriquecer a oferta de actividades culturais e turísticas com base na arqueologia. Porém, tendo em conta que a maior parte dos achados foi destruída para dar lugar às infraestruturas da barragem e sistema de rega, a sua valorização turística não é possível nos moldes tradicionais (i.e. visita a locais arqueológicos).
Para compreender como se pode valorizar esse património arqueológico inacessível aplicou-se uma abordagem com base em: entrevistas semi-dirigidas aos stakeholders regionais do turismo e património e aos promotores de obras responsáveis pelos estudos de impacte ambiental efectuados; foi também aplicado um questionário a turistas e residentes na região.
Os resultados fundamentais mostram que há interesse por parte dos inquiridos em integrar o conhecimento arqueológico na oferta turística existente, bem como os desafios inerentes, e indiciam a existência de um proto micro-cluster de turismo arqueológico na região. Após análise crítica e comparativa com outros trabalhos, estes resultados sugerem que a valorização deste recurso intangível deve passar por: i) uma abordagem de valorização inovadora à luz do turismo criativo; e ii) um trabalho de cooperação entre os actores envolvidos num processo de crescimento e clustering temático.
Este trabalho apresenta as limitações, estrutura e condições para esta abordagem criativa e processo de clustering.


O hipogeu calcolítico do Monte da Comenda 3

Sandrine Fernandes e Sónia Ferro



Quinta do Estácio 6. Exemplo de longa diacronia de um espaço de necrópole (Calcolítico, Idade do Bronze, Idade do Ferro)
Tiago do Pereiro e Rui Mataloto

O sítio Quinta do Estácio 6 (Beja) foi intervencionado por uma equipa Era Arqueologia/Omniknos no âmbito de trabalhos de minimização de impactes sobre o património arqueológico decorrentes da construção do Circuito Hidráulico Baleizão-Quintos e Respectivo Bloco de Rega (EDIA). Em cerca de 1.5km de vala aberta foram identificadas cerca de 168 estruturas perfazendo um total de 378m2 de área escavada. Estas estruturas apresentavam uma ampla diacronia, desde o Neolítico Final até à Época Romana, representado por estruturas de âmbito doméstico e contextos funerários. Nesta apresentação dar-se-á destaque aos contextos funerários, nomeadamente à Necrópole da Idade do Ferro, representada por 2 Recintos e oito sepulturas.


A produção de cal no período romano – O sítio do Magra 3 (Baleizão)
Lúcia Miguel

O sítio do Magra 3 corresponde a uma área industrial vocacionada para a extração e transformação da pedra calcária em cal, com uma dinâmica de ocupação enquadrada no séc. I d. C, na qual é possível distinguir áreas de combustão, áreas de despejo e áreas de extração de matéria-prima.
Neste local foram identificados 8 fornos, implantados numa vertente relativamente acentuada no sentido de facilitar o acesso por baixo à câmara de combustão, escavados directamente no substrato rochoso, sendo ainda percetíveis em algumas zonas restos de argila de revestimento.
A escavação destes fornos permitiu a identificação de várias fases de ocupação, percetíveis através das remodelações e reconstruções existentes, sobretudo no que diz respeito às antecâmaras de acesso aos mesmos.
A datação obtida para este local (meados do séc. I d.C) aponta inequivocamente para uma utilização intensiva destinada ao abastecimento da cidade de Pax Julia (actual Beja).


Fracassos e novas práticas: repensar a avaliação de impactes em arqueologia
Miguel Lago

Pretende-se analisar os principais problemas que se têm colocado ao longo dos anos às equipas de avaliação de impactes e de gestão de projectos de obras que incluem componentes de arqueologia. Em Portugal os vestígios arqueológicos relevantes são, na maioria dos casos, detectados em fase de obras, decorrendo desse facto decisões mal ponderadas e informadas bem como constrangimentos à gestão dos projectos e à monitorização das medidas de minimização. Este problema tem origem na forma deficiente como são elaborados os Estudos de Impacto Ambiental. Face à experiência acumulada pela ERA Arqueologia pondera-se uma alteração de paradigma e apresenta-se um modelo de actuação mais eficiente que forneça aos parceiros envolvidos nestes processos e na execução de obras novas perspectivas de decisão e de gestão de projectos.



Vinte anos de arqueologia empresarial.
Henrique Pestana

Uma visão pessoal do desenvolvimento da atividade de arqueologia empresarial em Portugal na perspetiva do gestor e empresário: as relações entre os diferentes atores, a evolução do modelo de negócio e cenários para o futuro.
 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

061 12º Colóquio da Era

Este ano a ERA leva a Arqueologia e o Património Arqueológico a uma escola de Gestão, organizando o seu colóquio anual em parceria com o centro de investigação SOCIUS do Instituto Superior de Economia e Gestão.

Para além da habitual apresentação de trabalhos realizados e comunicações de análise crítica sobre a Arqueologia Empresarial e sobre Estudos de Impacte Ambiental, serão discutidos os resultados de um projecto FCT (que teve como instituições participantes a ERA, o IPT, o SOCIUS e o CIAS) relativos a estudos sócio-económicos de património arqueológico intervencionado em Arqueologia de Salvamento no Baixo Alentejo. Poderão ver o que as comunidades da região sabem, o que pensam e como avaliam o interesse e o valor económico e social desse património através de inquéritos realizados com metodologias científicas; poderão conhecer os projectos-piloto previstos para a transferência de conhecimento arqueológico, por forma a ser utilizado nas dinâmicas sócio-económicas locais; poderão reconhecer, perante dados concretos, problemas e potencialidades que se colocam à divulgação do conhecimento arqueológico.

É já no dia 16 de Maio, no Auditório da Caixa Geral de Depósitos, no Instituto Superior de Economia e Gestão (Entrada pela Rua do Quelhas, 6). 




10.00h – Projecto “Práticas funerárias da Pré-História Recente no Baixo Alentejo e retorno sócio económico de programas de minimização de impactes”: apresentação de resultados de estudos sócio-económicos. Justificação e objectivos.  
António Carlos Valera

10.20h - Arqueologia de Salvamento: Oportunidade Estratégica ou Custo Afundado?
Patrícia Caldeira Jorge

10.40h - O Valor Social de Programas de Valorização do Património Cultural: o Caso de Brinches e Sobreira de Cima.  
Isabel Mendes  e Manuel Coelho

11.00h - Uma questão de comunicação....para começar a conversa!!! 
Ana Calapez Gomes

11.20h - Criatividade e clustering na valorização turística em arqueologia de salvamento
Idalina Dias Sardinha, David Ross e Sandra Loureiro

12.00h – Debate

15.00h – O hipogeu calcolítico do Monte da Comenda 3.
Sandrine Fernandes e Sónia Ferro

15.20h – Quinta do Estácio 6. Exemplo de longa diacronia de um espaço de necrópole
(Calcolítico, Idade do Bronze, Idade do Ferro).
Tiago do Pereiro e Rui Mataloto

15.40h – A produção de cal no período romano – O sítio do Magra 3 (Baleizão).
Lúcia Miguel

16.40h – Fracassos e novas práticas: repensar a avaliação de impactes em arqueologia.
Miguel Lago da Silva

17.00h – Vinte anos de arqueologia empresarial.
Henrique Pestana

quinta-feira, 17 de abril de 2014

060 A Idade do Bronze em Portugal: os dados e os problemas

Nos próximos dias 28 e 29 de Abril, decorrerá em Abrantes a Mesa Redonda "A Idade do Bronze em Portugal: os dados e os problemas". A organização do evento é da responsabilidade do Instituto Politécnico de Tomar e pretende reunir nestes dois dias investigadores de Norte a Sul do país que nos últimos se têm dedicado ao estudo de comunidades do II milénio AC. O NIA marcará presença, na pessoa do seu director, o Doutor António Carlos Valera, com uma comunicação intitulada Continuidades e descontinuidades entre o 3º e a primeira metade do 2º milénio a.n.e. no Sul de Portugal.




sexta-feira, 4 de abril de 2014

059 O sítio Mesolítico Antigo da Cruz da Areia

No actual contexto da produção científica, a diversidade e multidisciplinaridade são fundamentais para o desenvolvimento de novos paradigmas e o descortinar de novas questões. No âmbito da arqueologia, a geoarqueologia tem-se posicionado como uma das principais áreas de contacto transdisciplinar, na qual há ainda muito a acrescentar. Exemplo disso é o trabalho desenvolvido por Tiago do Pereiro no âmbito do seu mestrado em Geoarqueologia, tese que veio a defender no início de Março. Num esforço louvável, o signatário, insatisfeito com os resultados obtidos através dos tradicionais processos de análise de contextos arqueológicos, lançou-se na procura de alternativas que enriquecessem o estudo do sítio epipaleolítico da Cruz da Areia.
À costumeira análise de materiais líricos e sua respectiva dispersão espacial, foi acrescentado um conjunto de outras análises de pendor geológico. Entre elas, analises granulométricas dos sedimentos e o estudo morfométrico de balastros, este último procurando sobretudo evidenciar eventuais padrões na selecção dos suportes utilizados por estas comunidades na produção dos instrumentos e utensílios recuperados durante as escavações do sítio, bem como daqueles que acabaram por ser utilizados como termoacumuladores no âmbito das várias estruturas de combustão identificadas. Em conjugação com o trabalho de remontagem dos produtos de debitagem, a sua análise morfo-tecnológica e a sua dispersão pelos vários sectores, este estudo permitiu a despistagem de processos pós-deposicionais e o avanço de algumas leituras da biografiade ocupação do sítio. Foram evidenciadas áreas de actividade preferencial e diferenças substanciais entre níveis antrópicos e naturais, permitindo um faseamento  mais fino das várias utilizações. Por outro lado, este estudo poderá ainda servir de base a futuras análises em sítios menos conservados do que este, nos quais a movimentação vertical e horizontal de materiais inviabilize uma clara distinção dos níveis ocupacionais e respectiva segmentação espacial. 
Este trabalho surge assim como um importante exemplo de como (ainda) é possível pensar fora das gavetas nas quais espartilhamos o nosso conhecimento. As novas perguntas e novos caminhos que extravasem os limites da compartimentação com que castramos a inovação são a engrenagem dos motores da ciência, abrindo espaço para novas ideias e novas teorias, novas gavetas, que espartilhem com mais folga, até que venham mais perguntas e o processo recomece.


O Tiago defendeu a sua tese, intitulada “O sítio Mesolítico Antigo da Cruz da Areia: uma abordagem (Geo)Arqueológica”, no passado dia 14 de Março. Parabéns ao novo Mestre!


sexta-feira, 28 de março de 2014

058 O NIA na Universidade de Valência


A convite da Universidade de Valência, António Valera, director do NIA, apresentará naquela Universidade, no âmbito de uma ciclo de conferências integrado no Mestrado de Arqueologia, uma comunicação alusiva àquele que tem sido um dos principais focos da investigação do Núcleo desde a sua criação:


Recintos de Fosso e Práticas Funerárias:
Dilemas de categorização na Pré-história Recente do Sul de Portugal.








sábado, 8 de março de 2014

057 - Todos pudemos fazer mais e melhor


Persistem, desde há quase vinte anos, dois problemas de base na arqueologia portuguesa: as fortes limitações  em termos de difusão social e a pouca espessura científica que atingem a grande maioria dos projectos concretizados. Por isso, continuamos a ter muito que evoluir para rentabilizar todas as potencialidades da arqueologia que é encarada (quase sempre) por quem a paga como mero exercício de diletância dos seus praticantes ou como obrigação legal assumida com vista à obtenção de papéis ou assinaturas inerentes a licenciamentos.

É há muito evidente que temos poucos recursos para concretizar uma arqueologia ambiciosa do ponto de vista da prática de campo e dos processos de investigação ou de divulgação. Nunca se ultrapassaram minimamente limitações históricas de afirmação social da arqueologia, indo-se muito pouco além do mero fascínio que cria na generalidade das pessoas.

Para alterar este persistente estado de coisas é necessário que os arqueólogos em Portugal sejam muito mais conscientes do significado social da sua profissão e efectivamente capazes de agir no quotidiano de forma a afirmar o seu papel próprio.

Por isso, os arqueólogos portugueses não se podem conformar com a persistência de baixos níveis de exigência e com práticas que colocam em causa os pressupostos éticos e o sentido final da profissão; todos somos responsáveis e todos pudemos fazer mais e melhor.


Sendo o património finito, é também uma fonte inesgotável de conhecimento e de inspiração para o futuro que nos cabe, sobretudo a nós, difundir. Por isso, tentemos ser mais e mais exigentes, justificando as possibilidades e virtualidades da obtenção de resultados consistentes e socialmente disseminados.

Revelemos o nosso trabalho à comunidade...

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

056 A ocupação rural islâmica no Baixo-Alentejo: os materiais do sítio de Funchais 6 (Beringel)

Muito se tem debatido a pertinência do estreitamento da relação entre a universidade e o meio empresarial e do aumento do fluxo de know-how entre ambas as partes, tentando a máxima rentabilização de recursos e investimento a longo prazo na produção científica. Em arqueologia, o problema é gritante, sendo ainda insuficiente este tipo de cooperações. Atente-se nas reservas de materiais à beira ou mesmo no limite das suas capacidades. A maior parte dos materiais provem de trabalhos de minimização ou escavações de emergência e não serão submetidos a estudos mais aprofundados do que aqueles que a lei exige para a produção de relatórios. Com tanta matéria-prima disponível é de estranhar que tão poucos trabalhos académicos incidam precisamente sobre estes conjuntos.
      Desde a sua criação, o NIA defende a necessidade do estabelecimento de colaborações sistemáticas com a academia, no sentido de potenciar a produção de conhecimento científico, no seguimento dos trabalhos empreendidos pela Era. O exemplo mais recente do sucesso desta política interna surge sob a forma de uma dissertação de mestrado, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: A ocupação rural islâmica no Baixo-Alentejo – materiais do sítio dos Funchais 6 (Beringel). Este trabalho, da autoria de Alberto Cardoso, vem então acrescentar novos dados ruralização do território durante a ocupação islâmica, tendo o estudo incidido sobre os materiais cerâmicos recolhidos no âmbito de diversas estruturas negativas identificadas em Funchais 6, as análises tipológica e tecnológica permitiram determinar que a ocupação do sítio teria decorrido entre os séculos X e XII.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

055 - Conferência do NIA

No próximo Sábado, dia 22 de Fevereiro, António Carlos Valera terá uma comunicação intitulada "A religiosidade na Pré-História: manifestações do sagrado no Neolítico" integrada nas Jornadas de Património Religioso que decorrerão em Montemor-o-Novo.

Aqui fica o resumo:

"As abordagens à dimensão religiosa das comunidades pré-históricas são tão antigas como a própria Arqueologia. Deste o início que manifestações “artísticas” foram relacionadas com sistemas mágico-religiosos e utilizadas inclusivamente como critério de definição da humanidade moderna.

Com frequência, expressões “artísticas”, práticas funerárias e arquitecturas pré-históricas são entendidas como elementos simbólicos que operam num contexto ideológico de forte pendor religioso. No caso concreto do Neolítico, essas manifestações são tradicionalmente vistas como uma adaptação da superestrutura ideológica a uma transformação económica e social promovida pela afirmação da economia produtora, que simultaneamente traduz e viabiliza. Descobertas recentes, porém, documentam a anterioridade de grandes construções de cariz simbólico relativamente ao advento agrícola, revelando o poder motivador das cosmogonias.

Em Portugal, e no que ao Neolítico respeita (entendido num sentido amplo), a temática da religiosidade tem sido pouco pensada e debatida, raramente saindo das ideias há muito feitas (e pouco consubstanciadas).

Procurando renovar o debate, esta comunicação, mais que descrever um eventual sistema de crenças pré-histórico, abordará um conjunto de manifestações e práticas sociais neolíticas que remetem para enquadramentos cosmogónicos e sagrados, os quais permitem discutir a existência ou não de uma religião com corpo doutrinário e normativos bem definidos e diferenciados no período e a questão da relação entre formas de pensamento animista e religioso."

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

054 - Actas do Colóquio “Recent Prehistory Enclosures and Funerary Practices”


Organizado pelo NIA em Novembro de 2012, o colóquio “Recent Prehistory Enclosures and Funerary Practices” contou com a participação de um importante número de investigadores que se tem debruçado sobre as problemáticas alusivas às dinâmicas de ocupação de recintos de fossos por toda a Europa. O principal enfoque do colóquio foi a exposição e debate das práticas funerárias identificadas e analisadas no âmbito do estudo deste tipo de contextos, dos Cárpatos à Península Ibérica.
 
 
Na sequência desta iniciativa, o NIA prepara agora a publicação das actas do encontro, integrada na International Series dos BAR. Para abrir o apetite, deixo-vos então com o índice deste volume:


Proceedings from the international meeting

“RECENT PREHISTORY ENCLOSURES AND FUNERARY PRACTICES”

(Fundação Calouste Gulbenkian, Lisbon 6 to 8 of November 2012)


SUMMARY


Revisiting the issue of Recent Prehistoy Enclosures and Funerary Pratices.
António Carlos Valera
 
Times and timing of enclosure
Alasdair Whittle
 
Burial & enclosure in middle neolithic Britain: some observations and some problems of continuity.
Alex Gibson 

 The place of human remains and funerary practices in Recent Neolithic ditched and walled enclosures in the West of France (IV- III mill. BC)
Audrey Blanchard, Jean-Noël Guyodo, Ludovic Soler

Funerary practices in the Perdigões enclosure: time, diversity and cosmogony in the treatment conceded to the dead.
António Carlos Valera

Skeletons in the ditch: funerary activity in ditched enclosures of Porto Torrão (Ferreira do Alentejo, Beja)
Filipa Rodrigues
 
Human Bones, Burials and Funerary practices at Perdigões Enclosure
Ana Maria Silva, Cláudia Cunha
 
Human Bones from Chalcolithic Walled E nclosures of Portuguese Estremadura: the example of Zambujal.
Michael Kunst, Anna Waterman

 

Human Bones from Chalcolithic Walled Enclosures of Portuguese Estremadura: Leceia
João Luís Cardoso, Anna Waterman


Human sacrifices with cannibalistic practices in a pit enclosure? The extraordinary early Neolithic site of Herxheim (Palatinate, Germany)
Andrea Zeeb-Lanz

 Gendered burial at a henge like enclosure near Magdeburg, Central Germano: A tale of reverence and ritual killings?
André Spatzier, Marcus Stephen

 The Copper Age ditched settlement at Conelle di Arcevia (central Italy)
Alberto Cazzella, Giulia Recchia

 Funerary practices in the Copper Age settlement of Valencina de la Concepción (Seville): formal diversity and social rank.
Leonardo García Sanjuán 

Funerary Practices in the ditched enclosure of Camiño de las Yeseras: ritual, temporal and spatial diversity
Patricia Ríos, Corina Liesau, Concepción Blanco

Ditched enclosures in La Pijotilla and San Blás (Badajoz, Spain)
Victor Hurtado, Carlos Odriozola

 

sábado, 18 de janeiro de 2014

053 - Investigação científica na ERA Arqueologia



A ERA assumiu, desde a sua fundação, um forte compromisso com a investigação científica nas áreas da Arqueologia e do Património. Ao longo de dezassete anos é inegável que os resultados obtidos são relevantes, quer em termos de produção e difusão de conhecimento, quer em termos de formação e incremento das competências dos colaboradores da empresa.

A nossa estratégia de actuação no mercado tem sempre procurado privilegiar os valores da qualidade e da inovação. Não tem sido fácil, muito pelo contrário. A nossa área é pouco relevante socialmente e os níveis de exigência do mercado e das entidades tutelares não são elevados.

O forte investimento sistematicamente realizado em investigação, essencialmente assente em capitais próprios, tem tido um retorno pouco significativo do ponto de vista financeiro, continuando a administração da ERA a assumir esta aposta numa perspectiva de muito longo prazo. Apesar de algumas vantagens competitivas que dele têm resultado, reconhecemos que a estratégia prosseguida vinca uma postura mais condizente com entidades sem fins lucrativos. Perante o arrastar da actual crise, este modelo é cada vez mais difícil de sustentar.


Independentemente de eventuais apoios do Estado ao financiamento de projectos específicos e à formação avançada dos técnicos da empresa, essencial à obtenção de resultados inovadores e ao alargamento de competências internas, penso que a ERA deverá continuará a investir em investigação científica porque sem ela não será cumprido o seu propósito social, nem tão pouco será verdadeiramente útil aos seus clientes. Por isso, apesar das dificuldades, a visão de futuro da ERA implica a renovação desta aposta  em que toda a estrutura da empresa deverá, quanto a mim, continuar a estar implicada. É uma questão de identidade, de ADN e de convicção num projecto que procura sempre a produção e difusão de conhecimento tal como a plena activação social e económica da Arqueologia e do Património. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

domingo, 2 de junho de 2013

0051 - Oito anos depois...

... da entrega de originais foi publicado o estudo monográfico realizado para o Bloco 5 do plano de minimização da construção da barragem de Alqueva, intervenção da ERA Arqueologia. Tarde, mas saiu (como estão a sair as publicações de vários outros blocos). E isso merece aplauso, tanto mais que esta é uma prática não generalizada aos processos de minimização. O que se percebe mal. Porque razão grandes projectos, como auto-estradas por exemplo, não foram igualmente condicionados à publicação dos resultados dos trabalhos de minimização? Repito: percebe-se mal. Entretanto, esperamos para breve a publicação dos Blocos 9 e 10 do mesmo processo de mitigação, igualmente intervencionados pela ERA.

sábado, 4 de maio de 2013

050 - Investigação de práticas funerárias no NIA



Estrutura com deposições de restos de cremações (Perdigões, Serctor Q)
A investigação das práticas funerárias na Pré-História Recente é uma temática central da actividade do NIA. Participando em dois projectos FCT em curso dedicados a esta temática, foi organizador de um colóquio internacional em Novembro passado na Fundação Calouste Gulbenkian dedicado a esta temática, interveio no colóquio anual da ERA com uma comunicação sobre o recinto (funerário) de Bela Vista 5 e recentemente esteve presente, com comunicação e posters em parceria com o CIAS, no IIº Congresso Internacional sobre Arqueologia de Transição: O Mundo Funerário realizado na Universidade de Évora.
O próximo passo neste percurso será no próximo dia 11 de Maio em Abrantes, no encontro “A morte protegida. Discursos arqueográficos e discursos mentais. Modalidades funerárias na Pré-História Recente”, com a comunicação :

"Arqueologia da morte da Pré-História Recente no interior alentejano: como uma revolução empírica também depende de uma revolução teórica."  por António Carlos Valera.

Resumo:
"O interior alentejano tem assistido nos últimos anos, e no que à Pré-História Recente diz respeito, a uma catadupa de nova e importante informação, a qual tenho vindo a apelidar de revolução empírica, dada a transformação que implica nos conhecimentos prévios para a região. Os contextos funerários têm participado dessa dinâmica e a visão das práticas funerárias, do Neolítico à Idade do Bronze, tem-se alterado significativamente. Porém, a descoberta de todo este manancial de novos dados reclama por novas posturas teóricas, na medida em que a aquisição de dados e a sua valorização não são feitos num quadro de "tábua raza" ou de neutralidade teórica, mas sim enquadrados por matrizes conceptuais e questionários de construção teórica, que interferem na percepção desses dados e sem os quais muitos deles nem sequer se constituem como tal.

Nesta comunicação, sublinhando as principais alterações que se têm produzido no registo arqueológico de contextos funerários no interior alentejano no período em questão, apresentarei alguns dos reposicionamentos teóricos que considero fundamentais para uma abordagem consequente às problemáticas destas práticas funerárias."

sexta-feira, 29 de março de 2013

049 - Uma janela de oportunidades




No passado fim-de-semana decorreu mais uma Assembleia-geral da APA - Associação Profissional de Arqueólogos. O desenrolar dos trabalhos faz-me acreditar que se reuniram condições mínimas para um reactivar da associação. Em síntese:
- por manifesta irregularidade na sua forma de apresentação, foi retirada a candidatura da única lista que se apresentou às eleições;
– sem candidatos, foi adiado o processo eleitoral e novas eleições deverão ser agendadas para o Verão;
– foi aprovado um "perdão" parcial da dívida dos cerca de 350 associados actualmente suspensos (95% dos sócios).
Estes factos e o próprio ambiente vivido na Assembleia-geral, em que se assumiram de frente os problemas actuais, criaram uma janela de oportunidades para o (re)abrir do diálogo entre a APA e os arqueólogos, independentemente da sua condição de associados.
Para que a associação desempenhe a sua função junto dos arqueólogos, será fundamental implementar uma ambiciosa estratégia de comunicação que permita, por um lado, demonstrar aos associados suspensos que vale a pena regressar à vida associativa, e por outro, que possibilite a entrada de novos sócios. Sob este aspecto, é de destacar a aprovação na Assembleia-geral de uma campanha de angariação de novos associados, assente em vantagens garantidas durante o ano de 2013 pela forte redução de custos de inscrição.
É evidente que continuo a acreditar que a minha proposta de “perdão” total das dívidas acumuladas seria a mais simples, pragmática e capaz de assegurar aquilo que julgo ser pretendido por quase todos, ou seja, o retorno dos sócios e a emergência de uma renovada dinâmica interna. A mera aprovação de uma anulação parcial das dívidas pode não ajudar...veremos.
Infelizmente, dado que a actual equipa directiva não parece reunir condições para estabelecer pontes eficazes de diálogo com os associados, penso que o futuro da APA passa fundamentalmente pela capacidade de análise, discussão e acção que grupos de sócios venham a demonstrar ter. Seria muito vantajoso que, dessa desejada dinâmica, surgissem diversas correntes de opinião que convergissem em mais do que uma candidatura a apresentar às próximas eleições.
Independentemente de tudo, na base do futuro da associação estará sempre uma pergunta que tem que ser respondida: porque vale a pena apostar na APA?

sexta-feira, 22 de março de 2013

048 - Para uma sobrevivência útil da APA


Antes de mais tenho as quotas da APA em dia e, como sócio de pleno direito, irei estar presente na próxima Assembleia-geral da associação, procurando dar o meu contributo construtivo.

A sobrevivência da APA está em causa e o seu esvaziamento é da responsabilidade de todos os sócios. Não nos pudemos conformar com a situação de há muitos anos: uma entidade sem visibilidade, sem acção e sem ligação aos arqueólogos. A APA tem que funcionar e não podemos perder mais tempo com discussões inúteis sobre as razões que motivaram cada sócio a manter uma efectiva relação com a associação. Agora é urgente assumir que estamos no limite e que devemos ter a  coragem de trilhar um caminho consequente que rompa com o triste situacionismo em que estamos mergulhados. Para isso, é vital falar de directamente aos sócios começando por divulgar dados e números concretos sobre aspectos como a percentagem de sócios que estão suspensos (95%?), assumindo o valor concretos da dívida acumulada pelo não pagamento de quotas (€140.000,00??!!) e colocando na base da estratégia de acção a criação de condições mínimas para um eventual retorno daqueles que há mais ou menos tempo estão afastados.

Infelizmente, ao contrário do mencionado por António Silva em comentário à anterior entrada deste Blog, não existe uma “tão grande massa de sócios que queiram agora que lhes seja devolvida a APA”. Provavelmente essa é hoje uma questão que passa completamente ao lado de 99% dos arqueólogos portugueses. No entanto, porque acredito que uma instituição como a APA pode ser útil à profissão, não posso deixar de tentar encontrar soluções efectivas para mudar o estado das coisas, ou seja, para demonstrar ao maior número possível de arqueólogos que vale a pena participar na valorização e afirmação da associação que já existe. Daí o meu contributo materializado numa proposta a submeter à Assembleia-geral de amanhã, na qual lutarei para que nada de ilegal se passe. Sei que os poucos que lá estarão e os pouquíssimos que poderão votar partilham desta minha opinião.

quarta-feira, 20 de março de 2013

047 - A APA e o futuro dos arqueólogos



Aproxima-se a próxima Assembleia Geral da APA – Associação Profissional de Arqueólogos. O actual estado das coisas é grave, assistindo-se a uma paralisia total da vida associativa. Sem dados oficiais, estima-se que 95% (?) dos sócios da APA tenham a sua inscrição suspensa por falta de pagamento de quotas. A dívida dos sócios à associação é gigantesca e, obviamente, nunca será paga. Porquê? Porque o dinheiro é algo de preciosos e já (quase) ninguém acredita na APA. Ou seja, ninguém vai pagar por algo em que não se revê e em cujo futuro não acredita; para quase todos, a APA é hoje um projecto totalmente inexistente ou irrelevante para a sua vida profissional. Se por um lado os sócios estão divorciados da APA, por outro a actual direcção foi incapaz de alterar a situação. E disso deve ser responsabilizada.
No entanto, a APA pode e deve continuar a existir porque o seu projecto continua a ser válido ao serviço da ética profissional, da difusão e incremento das boas-práticas profissionais, como voz efectivamente representativa da maioria dos profissionais junto da sociedade e das entidades tutelares do património arqueológico; enfim, como actor principal na dignificação e afirmação social da profissão de arqueólogo.
 
Para além de intenções, é fundamental agir para a mudança. Podemos fazê-lo; podemos inverter a actual situação de pré-falência da APA. Como? Com uma estratégia que devolva a APA aos associados, a todos os associados, e crie condições para a inscrição de novos arqueólogos. Tal estratégia deverá ter como ponto de partida a anulação das dívidas dos sócios e a criação de possibilidades, se assim o entenderem, para o seu regresso à vida associativa. Esta opção deve ser assumida de forma muito realista por aqueles (poucos) que têm pago as quotas e que, consequentemente, podem votar esta decisão. Pensar que estes serão prejudicados corresponde a uma bizantinice.
A anulação das dívidas deverá ser complementada por uma dinâmica pré-eleitoral assente em projectos e candidatos alternativos a eleger. O que pressupõe que as eleições do próximo sábado não se realizem...
O momento actual é verdadeiramente de risco. A APA está no limite da sua sobrevivência e é impensável imaginar a sua persistência como instituição representativa de um escasso número de profissionais. Assumir tal possibilidade corresponde ao desvirtuar o projecto da associação, à sua eventual extinção e ao abrir caminho para o aparecimento de instituições alternativas à APA.
Os escassos sócios, entre os quais me incluo, que na próxima Assembleia Geral terão de tomar decisões deverão assumir as suas responsabilidades de forma corajosa e com a humildade inerente a quem se projecta num futuro diferente do actual situacionismo. Com bom senso, a APA pode voltar a reunir os arqueólogos portugueses em torno de grandes ideias e objectivos comuns.