domingo, 4 de março de 2012

0029 - Oportunistas ou irresponsáveis?



A Arqueologia estrutura-se, em parte, a partir de fontes que são finitas. De facto, por muitos restos que nos cheguem dos vários períodos históricos que nos antecederam, a sua descoberta, normalmente atingida através de escavações, vai “consumindo” as nossas possibilidades de abrir essas janelas sobre o passado. Por isso mesmo, a escavação de um sítio arqueológico, nomeadamente de contextos particularmente raros, deve ser muito bem ponderada: se estamos perante um recurso finito e limitado, devemos assumir uma postura de humildade ao proceder à sua efectiva eliminação. Não esqueçamos que qualquer escavação arqueológica é irrepetível; aquilo que hoje escavamos só poderá ser revisitado através do que registarmos.

Não tenho dúvidas em considerar que a Arqueologia portuguesa assenta em relativamente baixos níveis de exigência. Poucos o discutem e ainda menos são os que procuram alterar o estado de coisas. Por isso, os resultados finais dos projectos ficam demasiadamente sujeitos aos critérios das diversas equipas que vão actuando por este país fora, favorecendo-se os mais incompetentes ou oportunistas. Em casos como os da ERA, temos preocupações e uma Visão do que é o papel de responsabilidade, exigência e de inovação que devemos desempenhar. Mas outros casos existem em que a Arqueologia mais não é do que uma actividade de afectação de mão-de-obra em que nada se procura atingir do ponto de vista do conhecimento do passado.

A gestão dos sítios arqueológicos é também uma gestão de fontes de informação. Em muitos casos, é em fase de Estudo de Impacto Ambiental que as decisões começam a ser mal tomadas, sendo muitos os exemplos de más decisões assentes em informação muito limitada, apesar das hipóteses de efectiva recolha prévia de dados consistentes. Disso são exemplo os casos de grandes sítios arqueológicos que estão a ser escavados no âmbito da construção de várias auto-estradas, sem que nada deles tenha sido detectado em fase de avaliação prévia. Ou seja, fazem-se os estudos, tomam-se as decisões sobre grandes obras e, depois, em fase de obras, quando as opções são muito limitadas, surgem os problemas porque aparecem os sítios que ninguém detectara. Então, o tempo já é escasso, os recursos financeiros não estão disponíveis porque não foram previstos e os trabalhos que se realizam acabam por ser limitados à recolha dos dados mais evidentes e à elaboração de relatórios muito superficiais.

Estaremos a ser conscienciosos com a gestão de fontes de informação finitas? Estaremos a gerir correctamente o nosso território, tendo em consideração que nele residem tais janelas para o passado? Estará a nossa sociedade a beneficiar com a actual gestão dos recursos? E que pensarão os nossos herdeiros das decisões que tomamos? Por tudo isto, julgo que devíamos ser muito mais exigentes com o nosso tempo e com as nossas opções. Que deveriam ser muito mais debatidas e partilhadas socialmente. Não estaremos a ser, sobretudo, oportunistas e irresponsáveis?

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