sexta-feira, 4 de abril de 2014

059 O sítio Mesolítico Antigo da Cruz da Areia

No actual contexto da produção científica, a diversidade e multidisciplinaridade são fundamentais para o desenvolvimento de novos paradigmas e o descortinar de novas questões. No âmbito da arqueologia, a geoarqueologia tem-se posicionado como uma das principais áreas de contacto transdisciplinar, na qual há ainda muito a acrescentar. Exemplo disso é o trabalho desenvolvido por Tiago do Pereiro no âmbito do seu mestrado em Geoarqueologia, tese que veio a defender no início de Março. Num esforço louvável, o signatário, insatisfeito com os resultados obtidos através dos tradicionais processos de análise de contextos arqueológicos, lançou-se na procura de alternativas que enriquecessem o estudo do sítio epipaleolítico da Cruz da Areia.
À costumeira análise de materiais líricos e sua respectiva dispersão espacial, foi acrescentado um conjunto de outras análises de pendor geológico. Entre elas, analises granulométricas dos sedimentos e o estudo morfométrico de balastros, este último procurando sobretudo evidenciar eventuais padrões na selecção dos suportes utilizados por estas comunidades na produção dos instrumentos e utensílios recuperados durante as escavações do sítio, bem como daqueles que acabaram por ser utilizados como termoacumuladores no âmbito das várias estruturas de combustão identificadas. Em conjugação com o trabalho de remontagem dos produtos de debitagem, a sua análise morfo-tecnológica e a sua dispersão pelos vários sectores, este estudo permitiu a despistagem de processos pós-deposicionais e o avanço de algumas leituras da biografiade ocupação do sítio. Foram evidenciadas áreas de actividade preferencial e diferenças substanciais entre níveis antrópicos e naturais, permitindo um faseamento  mais fino das várias utilizações. Por outro lado, este estudo poderá ainda servir de base a futuras análises em sítios menos conservados do que este, nos quais a movimentação vertical e horizontal de materiais inviabilize uma clara distinção dos níveis ocupacionais e respectiva segmentação espacial. 
Este trabalho surge assim como um importante exemplo de como (ainda) é possível pensar fora das gavetas nas quais espartilhamos o nosso conhecimento. As novas perguntas e novos caminhos que extravasem os limites da compartimentação com que castramos a inovação são a engrenagem dos motores da ciência, abrindo espaço para novas ideias e novas teorias, novas gavetas, que espartilhem com mais folga, até que venham mais perguntas e o processo recomece.


O Tiago defendeu a sua tese, intitulada “O sítio Mesolítico Antigo da Cruz da Areia: uma abordagem (Geo)Arqueológica”, no passado dia 14 de Março. Parabéns ao novo Mestre!


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