sexta-feira, 13 de julho de 2012

037 - Arqueologias de costas voltadas


Sem investigação a Arqueologia não faz sentido.

Considero que um dos problemas mais graves da Arqueologia portuguesa assenta no facto das problemáticas inerentes à investigação científica não serem plenamente condicionantes nem condicionadas pela esmagadora maioria das intervenções arqueológicas que são realizadas no nosso país. Centenas de sítios arqueológicos são anualmente escavados de forma desgarrada, sem programa específico e sem profissionais devidamente preparados para os abordar de forma adequada às suas potencialidades. Por isso, o conhecimento adquirido é tendencialmente incipiente. Por isso, desperdiçamos dia a dia hipóteses de progredir no conhecimento do passado do nosso território e das populações que nele habitaram. Por isso, o nosso Património arqueológico pode estar a ser “inconscientemente” delapidado.

 A recente identificação na margem esquerda do Guadiana de um sítio datado da Pré-história Antiga, mais propriamente do Paleolítico Superior e Médio, suscita, pelo seu carácter inédito, enorme perplexidade. Como é possível que no Alentejo sejam tão escassos estes sítios, apesar da quantidade imensa de obras fortemente intrusivas que ali têm sido realizadas com acompanhamento arqueológico, nomeadamente de barragens, sistemas de rega ou estradas? As razões são simples: falta de preparação das equipas de prospecção arqueológica e de acompanhamento arqueológico de obras; total incapacidade de investigadores especializados em proporem inovadoras estratégias de actuação e de articulação entre Arqueologia de Investigação e Arqueologia de Salvaguarda; incapacidade da tutela do Património reagir a manifestas lacunas de informações, inequivocamente relacionáveis com problemas de gestão científica do território.

É evidente que não se identificam os sítios porque não estamos preparados para os identificar. Por isso, sem capacidade de analisar a realidade, retemos uma visão totalmente parcial dos vestígios arqueológicos e daquilo que estes nos contam sobre o passado. Assim, a História que produzimos torna-se mais pobre.

A solução passa por articular investigadores especializados com profissionais de Arqueologia Aplicada. Tal seria possível desde o despontar dos projectos, quase sempre relacionados com obras, a partir de uma renovada exigência dos Arqueólogos em relação à sua profissão e da tutela do Património em relação à sua responsabilidade legal. Por isso, a apreciação dos planos de trabalho e das equipas propostas para a sua concretização deveria ser mais rigorosa e exigente; por isso, também deveria ser fortemente incrementada a relação entre universidades e empresas de Arqueologia.

Não esqueçamos que a dinâmica da nossa Arqueologia é enorme. As intervenções sucedem-se. As descobertas relevantes são imensas. E os resultados em termos científicos poderiam ser enormemente ampliados com os recursos de que dispomos actualmente.

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